Ensaios de informação cultural  (1)

 

 

Isa Maria Freire

Doutora em Ciência da Informação. Antropóloga.

Professora no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação

Convênio CNPq/IBICT – UFRJ/ECO

 

 

 

O retorno de Dioniso

 

 

 

Luz, muita luz, o som dos tambores e dos instrumentos se misturam no ritmo, os cânticos se alteam e alternam. Os cortejos seguem-se uns aos outros, animados, ruidosos, com danças e coreografias entusiasmadas. A ordem da procissão é pré-estabelecida, com anúncio de cada grupo que se apresenta, todos com seus adereços e apetrechos. E por ali passam, os antigos e os neófitos, uns se reconhecendo nos outros, tomados por risos de aceitação e igualdade.

 

Quando e como começaram esses festejos ? Junito de Souza Brandão, um estudioso da mitologia grega, diz que as histórias sobre Dioniso remontam a 20 séculos antes de Cristo. Talvez o passado seja ainda mais remoto, pois ele era o deus da vegetação, o consorte da deusa-mãe da terra, o deus que fecundava e fazia nascer de novo o grão, e com ele a vida.

 

Dioniso é Baco, deus da vinha e do vinho, puro êxtase e puro deleite, obscurecido durante milhares de anos pela luz do irmão que é seu oposto, Apolo. Pois enquanto o carro do sol roda nos céus, Dioniso se esconde, e quando a noite chega, ele reina. No domínio dos sonhos, no inconsciente da espécie e no trabalho incansável das células e dos órgãos que dirigem o corpo, ele vela. E no período da interdição da luz, aparece, esplêndido e forte, arrastando as multidões ao delírio.

 

Durante parte da noite, até quase a exaustão, os participantes dos cortejos bailam e cantam e tocam em homenagem ao deus da metamorfose, Dioniso, o deus da transformação. No período das festas o deus estará presente, com sua incansável energia dirigida para os ritos, e a celebração da vida retoma sua origem mítica e mística.

 

Dioniso, o deus do entusiasmo, amassou os cachos de uvas e transformou o natural em cultural através da sua tecnologia mágica. Mas se viu destronado na roda do tempo: a ordem natural, da agricultura orgânica, das deusas e dos festivais de celebração da vida, chegara ao fim. Hordas de tribos nômades ocuparam as terras férteis banhadas pelo Mediterrâneo, instalando nelas sua tecnologia de guerra e seus ritos de morte.

 

A ordem social natural foi desfeita e os povos conquistados tornaram-se escravos. Os mistérios da deusa-mãe-da-terra refugiaram-se nas cavernas de Elêusis, enquanto nos campos eram espalhadas as sementes de uma produção que doravante seria de uns poucos, embora produzida por muitos. A civilização de Apolo acendeu o lado esquerdo do cérebro, o racional, criando novos mitos e ritos, escrevendo a história das primeiras conquistas do povo do ocidente, a matemática, a geometria, a filosofia ... e construindo as máquinas de guerra.

 

 

No corredor féerico de luz e som, os carros do cortejo seguem narrando seus temas. Os passos e volteios são tão variados quanto as tribos que desfilam. O lado direito do cérebro cria e recria a coreografia na dança das cores dos estandartes, as ondas de alegria se espairando dos iniciados e iniciantes aos espectadores ...

 

Muito tempo teve que ser tecido no tear da vida para que novamente os cortejos de Dioniso desfilassem em campo aberto. Mas o retorno de Dioniso ainda não é para todos, pois tanto quanto há 3.000 anos o cortejo é apenas para os iniciados, os escolhidos. E tudo pode parecer como era antes, mas agora é diferente. Houve a necessidade de se construir socialmente a privacidade, tão recente quanto as teorias científicas, e de se desenvolver o mercado, agora global e não mais tribal.

 

O retorno de Dioniso, contraditoriamente, viajou no carro de Apolo, que o fêz descer nas terras do norte, longe das águas azuis do Mediterrâneo. A guerra o trouxe de volta, uma guerra que se tornou sem sentido e engendrou um arauto, um brado mundial: “make love, don’t war”. E foi na lama de Woodstock, renascido pela água como nos primórdios dos seus ritos, que o deus-consorte da deusa-mãe-da-terra retornou e se espalhou como um rastilho de entusiasmo pelo mundo afora.

 

E aqui, em terras de além-mar, do lado de baixo da linha do equador, encontrou destino certo e pouso garantido. Agora, não só no período a que chamaram carnaval, mas em outros períodos em que se interditam as tarefas do cotidiano e se elegem a alegria e a celebração da vida como riquezas a serem desfrutadas.

 

 

No Corredor da Folia, os cortejos se sucedem, cada um com seu kit ritual, sua roupa especial, seus nomes ribombando nos altos-falantes de milhares de watts, o frevo sacudindo as multidões. No CarNatal, Dioniso retorna com todo seu entusiasmo, sua energia transformadora, seu ímpeto alegre e sua vibração telúrica. E depois desse rito de metamorfose, ninguém mais será a mesma pessoa ...