Encontro Verde das Américas

Painel da Mulher – A Ação da Mulher na Preservação Ambiental do Planeta

 

Nas asas do feminino

 

Palestra por

 

Isa Maria Freire, doutora em Ciência da Informação

Antropóloga, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação,

Convênio CNPq/IBICT – UFRJ/ECO

 

 

 

 

Nos primórdios, as mulheres eram responsáveis pela manutenção do núcleo familiar e, por extensão, de todo o grupo social. Sua capacidade de observar e experimentar elementos da natureza que poderiam ser úteis como remédio ou alimento, criou toda uma sabedoria popular na arte da alimentação e da cura. Seu trabalho era relacionar os tempos naturais com as necessidades humanas, mantendo o grupo unido. Seu arquétipo era o da força renovadora da natureza, representada pela deusa da fertilidade. Foram os tempos da Grande Mãe da Natureza

 

“Sou aquela que é a mãe natureza de todas as coisas,

senhora e regente de todos os elementos, progenitora inicial dos mundos,

chefe dos poderes divinos, ... soberana daqueles que habitam o céu,

manifesta através de uma só e única forma

em todos os deuses e deusas.”

 

A deusa era associada ao poder criador da Terra, à disponibilidade periódica de alimento, à estabilidade recentemente conquistada mediante a domesticação de plantas e animais. A tradição dizia que, depois do longo inverno, a mãe-de-todos novamente tocaria a natureza com sua magia e o princípio feminino se manifestaria nas cores, sons, cheiros e insetos da primavera. A vida era uma dádiva, um presente sempre desfrutado, celebrações de alegria e lamentações de tristeza, os sons e os gestos da liturgia dos ritos.

 

“Os planetas do céu, os ventos salutares que sopram do mar e

os silêncios lamurientos do inferno são dispostos segundo minha vontade.

Meu nome, minha divindade, é adorada em todas as partes do mundo, ...

com costumes  variados e segundo várias denominações.” 

 

Mas, quando a roda da fortuna girou, marcando a passagem do tempo feminino para o masculino, a deusa foi substituída pelo deus-pai, o organizador, que delegou às mulheres a causa do pecado. E alienou-as do poder de produzir riquezas, deixando-as limitadas à reprodução da força de trabalho. As tecnologias da guerra estabeleceram uma linha de desenvolvimento humano que nos trouxe ao máximo da produção material e ao mínimo do comprometimento afetivo. Entre a cozinha e o quarto, o feminino sonhou durante milênios, até que a força unificadora da vida chamou as mulheres de volta para a ação cultural. E elas entraram pela porta da frente, com Marie Curie, Lou Salomé, Isadora Duncan, Sara Bernardt ... e lutaram por seus direitos sociais em praça pública, sem esquecer o núcleo familiar e sem perder a afetividade com seus companheiros.

 

A visão de mundo plantada pelo brado hippie para substituir a guerra pelo amor resgata o poder da deusa, a celebração do que é feminino, como os ritmos que mexem com a pélvis, as cores alucinógenas, as novas formas de cumprimento público que incluem beijos em profusão, os tecidos leves e macios, o amor romântico made in Hollywood e as promessas de uma relação para a vida toda. “Até que a morte nos separe.”

 

A deusa veio até nossa cultura materialista nas asas do feminino. Podemos vê-la nos shoppings, incorporada nos jovens pais que carregam seus bebês no colo enquanto as companheiras olham as vitrines. Ou sentimos sua ação através dos organismos internacionais e não-governamentais, de protocolos jurídicos, de movimentos políticos apartidários, do pensamento ecológico, da inteligência emocional ... Dispensadora de dons, este é o arquétipo da deusa. E o maior deles, é a vida.

 

O feminino compartilha do mistério da vida.

E o mistério se desvela na abundância, no riso, no sexo,

no afeto, na solidariedade, na responsabilidade social ...

A Deusa está voltando, nas asas do feminino.

 

Devemos estar prontos para a celebração da vida nessa nova visão, sabendo que estaremos nos expressando em um novo paradigma relacional, marcado de forma prazerosa pelo resgate da Deusa, acompanhada de seu consorte Dioniso. A luta arquetípica entre feminino e masculino começa a encontrar um campo de ação onde a idéia do “nós” pode encontrar seu espaço de expressão. Pois o milagre da unidade na diversidade é o principal atributo da deusa-mãe-da-natureza. E esta é a informação que trago para este evento, como contribuição à teia da rede que estamos tecendo, para pescar o conhecimento que nos faça mais conscientes da necessidade de uma sociedade solidária  no nosso planeta.

 

 

 

 

Nota: No texto entre aspas, o Discurso da Deusa, conforme Apuleio em O asno de ouro.