Sobre as

Matrizes Perinatais Básicas

de Stanislaw Groff

 

 

por

 

Isa Maria Freire[1]

 

 

 

 

 

Quando dispôs da impressionante quantidade de 10 mil relatos de sessões de regressão (a maioria delas induzida por alucinógenos) de clientes da sua psicologia transpessoal, o Dr. Stanislaw Groff conquistou uma platéia interessada em conhecer e discutir sua abordagem teórica para a formação das estruturas imagéticas e sensoriais da mente humana. Ele expôs sua visão em linguagem acessível ao público não-especializado, chamando de Matrizes Perinatais Básicas (MPB) o resultado desse processo comum à espécie humana mas diferenciado individualmente.

 

Tal como o modelo do Dr. Carl G. Jung para os tipos psicológicos básicos, o de Groff é, também, quaternário. E se Jung, abordando o campo da psique, já propunha a qualidade psicóide do arquétipo, que define sua íntima associação com os processos biológicos, Groff dá a estes últimos, em especial os processos perinatais (anteriores e imediatos ao nascimento), um papel fundamental.

 

Na sua perspectiva, as experiências sensoriais e fisiológicas do feto durante a gestação e por ocasião do nascimento, são básicas para a formação das estruturas psico-corporais com as quais o indivíduo irá perceber, compreender  e atuar no meio que será seu ambiente pessoal e social. Essas experiências perinatais se traduzem em matrizes, formas ou modelos vivenciais com uma base neuro-endócrina comum ao genótipo humano à qual é agregado o valor da experiência pessoal.     

 

Essas matrizes perinatais básicas (mpb) iniciam o processo de imprinting nas estruturas sensoriais e imagéticas quando o ciclo embrionário se encerra. O feto está pronto para sentir e reagir e flutua no líquido amniótico. A primeira matriz  é uma imagem do paraíso, onde o esforço para respirar, mover-se e alimentar-se é mínimo.

 

O ciclo da primeir mpb  termina quando o organismo deixa de fabricar um hormônio que "enganou" o sistema imunológico durante nove meses e o fez ignorar um invasor — o feto. Ato contínuo, se instala um processo de "expulsão" do invasor, mediante secreção de toxinas que invadem o organismo da mãe e o do feto. O sistema circulatório produz um campo neuro-endócrino que se traduz em contrações, para a mãe, e em dificuldades respiratórias e imagens aterrorizantes, para o feto. Nesta situação se formam as matrizes para as visões do inferno, a base psico-neuro-endócrina para a expressão de imagens bizarras, como as de Jerome Bosch, e histórias de terror, como as de Edgar A. Poe.

 

E emerge a terceira matriz, criada pela necessidade do feto encontrar uma solução que lhe permita transformar[se] de imediato, uma estratégia que lhe possibilite oportunidades de sobrevivência. A natureza oferece como saída a passagem pelo canal vaginal, um estreito caminho por onde mãe e feto transitarão, juntos, mediante movimentos pulsantes sincronizados: o organismo da mãe "expulsa" o intruso através do ritmo das contrações; a estrutura corporal do feto encontra seu caminho para fora daquela situação opressora, escorregando, literalmente para um novo meio ambiente.

 

A quarta, e última, matriz  será formatada pela experiência de respirar oxigênio, o tecido ainda aquoso do pulmão invadido pela chama ardente do poderoso gás que dá a Vida com seu sopro e a tira gradualmente, no processo de oxidação celular. Somente a vivência de ser bem recebido nesse novo ambiente, a percepção de um ambiente afetivo e cálido à espera, podem diminuir a sensação de paraíso perdido que ronda nosso corpo/alma, nesse momento. Uma impressão que pode tornar-se um padrão de sentimento e de expressão da emoção.

 

O Dr. Groff acredita que, em situações terapêuticas, estruturas opressoras formatas durante a vivência das matrizes perinatais básicas podem ser transformadas, de modo a ajudar indivíduos a superarem traumas decorrentes desse processo. Esses traumas se traduzem, muitas vezes, em depressão endógena, dificuldades de expressão da identidade e de desenvolver um processo saudável de auto-estima. Nesse sentido, padrões traumáticos decorrentes de mpb  podem se constituir em barreiras no processo que Jung denominou individuação, definido como a busca da expressão do Si Mesmo.

 

Nas situações terapêuticas propostas pelo Dr. Groff, são conduzidas regressões intra-uterinas, registradas pelo terapeuta e posteriormente discutidas com seus clientes. Embora de reconhecido valor terapêutico, trata-se de uma situação diádica, de uma experiência entre dois sujeitos, inseridos em uma  estrutura de atuação clínica. No modelo diádico, a quantidade de energia criada no processo é suficiente apenas para investimento do sujeito-cliente no seu "salto quântico" transformador. São muitas horas de trabalho para um único resultado.

 

As situações terapêuticas em grupo nos parecem mais produtivas no trabalho com as dificuldades decorrentes de traumas no processo de estruturação das mpb. Uma maior quantidade de sujeitos em interação certamente criará um campo energético mais potente e vários indivíduos podem vir a dar seus "saltos" no caminho da individuação, em menos tempo.

 

Dentre as terapias de grupo disponíveis, a Biodança se destaca por sua tecnologia alicerçada em um novo paradigma filosófico, o princípio biocêntrico, que propõe uma cosmovisão centrada na Vida como manifestação do Amor.

 

Utilizando uma gestalt  operatória que integra música, movimento e emoção em situações de encontro humano, a Biodança abre novas possibilidades para o trabalho de vinculação entre emoção, inteligência e comportamento, mediante vivências integradoras. Em especial, por sua proposta afetiva e metodologia progressiva, a Biodança oferece novos caminhos para conduzir situações terapêuticas que imprimam novas e positivas matrizes emocionais.

 

É vivenciar para crer. A síntese de sua proposta terapêutica é:

 

 

Renascer em uma nova situação existencial,

com a alegria de aceitar a si mesmo

como merecedor da felicidade.

 

 

 

 

 

 



[1] Doutora em Ciência da Informação. Antropóloga e Socióloga. Professora no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Convênio MCT/IBICT – UFF. Facilitadora de Biodanza (International Biocentric Foundation).