na passagem ...

 

 

 

por  Isa Freire

Antropóloga. Professora no Programa de Pós-Graduação em

Ciência da Informação. Convênio CNPq/IBICT - UFRJ/ECO

 

 

 

 

 

Deu na TV, no noticiário local da noite. Foi na cobertura jornalística do saque ao supermercado em João Câmara. A mídia estava lá, convidada para o evento. As pessoas famintas derrubaram as portas de ferro e levaram toda a comida que puderam carregar. Eu não vi, mas Socorro de Figueiredo me contou. Aliás, representou.

 

"Entrei" no cenário da imaginação e "vi" a cena: a repórter, agitada, microfone na mão, de pé sobre o balcão de um dos caixas, transmitia "ao vivo" uma informação, o acontecimento em tempo real mediatizado pela tecnologia da comunicação. Eis que, de repente, justo na passagem onde se empoleirava a repórter, surgiu na câmera, e na telinha, a imagem de uma mulher.

 

Incorporada em Socorro, ela caminhava lépida, com ar satisfeito, saindo do supermercado com sua parte no saque. A repórter espantou-se e perguntou(se): "por favor, a senhora aí, o que está levando, deixe-me ver ... uma boneca ?!!!" A câmera enquadrou a mulher, levando sob um dos braços o alimento que fora buscar — uma boneca, numa caixa cor-de-rosa. A mulher olhou para o alto, com a dignidade dos que se sentem justiçados (essa parte é minha contribuição à representação), encarou a repórter e seu microfone, ignorou o olho da câmera, e lhe deu resposta: "uma boneca, sim, minha filha nunca teve uma boneca". E sorriu, abertamente, "agora ela vai ter uma".

 

A imagem saiu da telinha mas ficou-me na memória: fome, saque, satisfação, uma boneca,  muitas necessidades ...  "Você tem fome de quê,  você tem sede de quê ?", questionam os Titãs. O que é permitido, o que não pode ? "É proibido proibir", bradavam os estudantes nos idos de '68, em Paris. "Ideologia, eu quero uma p'rá viver", lembro, com saudade de Cazuza. E depois, por associação imediata, "Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga p'rá gente ficar assim ..." Qual o sentido desse mundo humano, senão a necessidade e o desejo de satisfazê-la, que transgride e transcende ?

 

Agora, os jornais impressos me informam que as imagens do saque vão ajudar a identificar as pessoas que levaram mercadorias alheias à subsistência do corpo em si. Essas pessoas serão indiciadas em inquérito policial, uma complicação séria. Fiquei pensando, "e a mulher da boneca ?" A sua necessidade, seu sonho, sua satisfação enquadrada em algum artigo do código penal. E me pergunto: o que é mais humano, pegar comida para subsistir nessa condição famélica que é morte em vida, ou pegar carona na oportunidade e atender outras necessidades, encarnadas numa mercadoria ? É permitido, é proibido, pode ou não pode sonhar, desejar, e ir à luta naquele mínimo tempo da possibilidade ? Afinal, quem atribui o valor, peso e medida para a necessidade humana ?

 

p'rá ficar pensando, nos humanos com seus desejos ...