Sonhos que se sonham junto(s) ...

 

Isa  Freire

 

Antropóloga. Professora/pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (Convênio CNPq/IBICT - UFRJ/ECO)

 

 

 

 

Quando cheguei, a mesa já estava formada. Na obscuridade do auditório, a iluminação do palco parecia feérica e ressaltava os balões verde-amarelos e as flores de todas as cores. Sentei num banco auxiliar, logo à entrada. Pouco depois, uma mulher abre a porta, corre os olhos pela platéia e palco, e me pergunta: “Quem é aquela mulher [que está falando agora]?” Respondi-lhe, com certo orgulho: “A professora Conceição de Almeida, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.” Assim mesmo, por extenso. Na mesa, entre celebridades como os professores Edgar Morin e Candido Mendes (reitor da Universidade que leva seu nome), com seus cabelos de fogo e sua presença irradiante, Ceiça (como a tratamos, carinhosamente) falava sobre a importância do abraço.

 

Estávamos no Congresso Inter-Latino para o pensamento complexo (Rio de Janeiro, de 8 a 11 de setembro de 1998). No final das conferências programadas para aquela manhã, um professor falaria da importância do feminino para nossa época. E, antecipando-se, o feminino já estava ali, no discurso sobre o abraço e no gesto de Ceiça, retocando o batom à mesa que dividia com os mestres ilustres, seu contraponto masculino.

 

Pnesei, este é o um dos resultados da planetarização do conhecimento, daquilo que Morin chama “globalidade” em contraposição a “globalização”. Nossa querida Ceiça transformando a afetividade nordestina-feminina em discurso científico para o mundo provar e aprovar (todos nos abraçamos, ao final das conferências, no coffee-break que se transformou em ponto de celebração da vida!).

 

Antes, escrevendo na contracapa do caderno Idéias do Jornal do Brasil de 5.9.98, Ceiça havia sido categórica: “A universidade precisa mudar”, e mudar para promover “um pensamento realmente criativo e libertário”. Pois no mundo global, onde “a terra é um só planeta e os seres humanos seus cidadãos” (palavras de Bahá’u’llá, profeta persa fundador da Fé Baha’i), somente criatividade e liberdade podem dar conta da complexidade dos problemas e encontrar as soluções sociais que a política e economia ortodoxas não podem encontrar.

 

E o que dizer do Grupo de Estudos da Complexidade, que Ceiça coordena na UFRN, que reúne pessoas vinculadas ou não à área acadêmica no Brasil e no mundo ? Talvez tudo isso esteja nos dizendo que as soluções para problemas globais começam por aí, na reunião de pessoas diferentes com propósito semelhante numa usina de sonhos que, sonhados juntos, podem transformar a realidade. Pois ainda há tempo para transformar(se) e sempre haverá, enquanto houverem razões iluminadas pela esperança e movidas pelo amor. Ainda há tempo para tornar-se cúmplice de uma nova utopia comprometida com a felicidade.

 

Somos e estamos complexos nesse universo onde vivemos, que surgiu de uma singularidade e evoluiu através da reciprocidade. Espero podermos unir nossa singularidade, representada por nossos egos limitados a nós mesmos, num movimento solidário fundado na característica gregária da espécie. Pois a humanidade é uma só, mas colorida como as flores, diferenciada como a expressão das emoções, embora assombrada pela perspectiva de um holocausto planetário provocado pela fome e violência do nosso tempo. Porém, sempre acalentada pela esperança, “a última que morre”.

 

Acho que o pensamento complexo nos dá essa perspectiva de dias melhores. Afinal, no fundo no fundo tudo é tão simples, bastaria “amarmo-nos uns aos outros” como o profeta Jesus nos amou e ensinou. Tão simples quanto a metáfora daquela mesa ilustre, onde Ceiça fazia, ela mesma, o contraponto à ambiência intelectual, cuidando da beleza ao mesmo tempo em que cuidava do discurso científico.