Publicado em Colunas - DataGramaZero Revista de Ciência da Informação, v.5, n.4, agosto de 2004. http://www.dgz.org.br/

 

A teia da informação[1]

 

 

Por      Isa Maria Freire

            Antropóloga e Socióloga. Doutora em Ciência da Informação

            Professora e Pesquisadora no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação

            Convênio MCT/IBICT - UFF

 

 

A teia mundial da informação é o objeto das reflexões do sociólogo Manuel Castells, que refraseia MacLuhan para expressar as possibilidades de comunicação na Galáxia da Internet: “a rede é a mensagem”. A relevância da Internet para a sociedade contemporânea seria tal que ele a define como “o tecido de nossas vidas”, especialmente por constituir a urdidura tecnológica para “a forma organizacional da Era da Informação: a rede”.

 

Castells ressalta quedurante a maior parte da história humana, diferentemente da evolução biológica, as redes foram suplantadas como ferramentas de [organização]. Agora, ... a introdução da informação e das tecnologias de comunicação baseadas no computador ... permite às redes exercer sua flexibilidade e adaptabilidade, e afirmar assim sua natureza revolucionária”. A emergência da Internet seria decorrente da reunião, nas últimas décadas do século XX, de três processos até então independentes: as exigências da economia por flexibilização administrativa e globalização “do capital, da produção e do comércio”; as demandas da sociedade, baseadas em valores de liberdade individual e livre comunicação; e “os avanços extraordinários na computação e nas telecomunicações possibilitados pela revolução microeletrônica”. Quando a web se instalou, em meados da década de 1990, “milhões de usuários levaram para a Net suas inovações sociais” e deram uma contribuição decisiva para a configuração e evolução da Internet, especialmente na formação de comunidades virtuais e no estabelecimento dos valores de uma cibercultura:

           

            Por exemplo, o Institute for Global Communication (IGC), fundado em São Francisco, articulou             algumas das primeiras redes de computadores dedicadas à promoção de causas socialmente relevantes             como a defesa do meio ambiente e a preservação da paz mundial. [As] Redes comunitárias, como a     criada             em Seattle por Douglas Schuler ou a Cidade Digital de Amsterdã[2], renovaram e fomentaram a participação             de cidadãos ... Nos últimos anos da União Soviética, redes pioneiras de computadores, organizadas por             acadêmicos de maneira independente, como a RELCOM, foram muito importantes na luta pela democracia e             a liberdade de expressão nos momentos críticos da Perestroika.”

 

O resultado é que o mundo social criado pela Internet tornou-se tão diverso e contraditório quanto a própria sociedade: “empiricamente falando, não existe algo como uma cultura comunitária unificada da Internet. A maioria dos observadores ... enfatiza a extrema diversidade das comunidades virtuais”. Essas comunidades trabalham com base em duas características fundamentais comuns: a comunicação livre (a “liberdade de expressão de muitos-para-muitos foi compartilhada por usuários da Net desde os primeiros estágios da comunicação on-line, e tornou-se um dos valores que se estendem por toda a Internet”); e a formação autônoma de redes, isto é, a possibilidade de qualquer pessoa criar e divulgar sua própria informação, induzindo assim a formação de redes. “Desde os BBSs mais primitivos da década de 1980 aos mais sofisticados sistemas interativos da virada do século, [esse] padrão de comportamento ... permeia a Internet e se difunde a partir dela para todo o domínio social”.

 

Entretanto, “o uso da Internet é extremamente diferenciado em termos territoriais, em conformidade com a distribuição desigual de infra-estrutura tecnológica, riqueza e educação no planeta [e] dentro dos países, há também grandes diferenças”.[3] Nesse processo, a diferenciação entre os que têm e os que não têm Internet acrescenta uma nova forma de desigualdade e exclusão social às existentes, a “divisão digital”.

 

Castells indaga se “é realmente verdade que pessoas e países tornam-se excluídos por estarem desconectados de redes baseadas na Internet” ou se “é por estarem conectados que se tornam dependentes de economias e culturas, numa relação em que têm pouca chance de encontrar seu próprio caminho de bem-estar material e identidade cultural?” Ele nos convida a ir além das dimensões mais óbvias da divisão digital: “se há um consenso acerca das conseqüências sociais do maior acesso à informação é que a educação e o aprendizado permanente tornam-se recursos essenciais para o bom desempenho no trabalho e o desenvolvimento pessoal”. E cita os EUA, como exemplo de uma política educacional que considera a relevância da Internet: entre 1994 e 1999, a percentagem de escolas públicas conectadas à Internet aumentou de 35% para 95%, quase alcançando 100% em 2001. Mais significativamente: enquanto em 1994 somente 3% das salas de aula estavam conectadas à Internet, em 1999 o número era 63% de salas de aula conectadas.

 

Mas chama atenção para o fato de que a Internet só se traduz em vantagens educacionais quando os professores foram preparados para utilizar as tecnologias digitais de informação e comunicação, embora não se trate apenas de competência tecnológica: “A questão crítica é mudar ... para o aprendizado-de-aprender, uma vez que a maior parte da informação [estará] on-line e o que realmente [será] necessário é a habilidade para decidir o que procurar, como obter isso, como processá-lo e como usá-lo para a tarefa específica que provocou a busca de informação. Em outras palavras, o novo aprendizado é orientado para o desenvolvimento da capacidade educacional de transformar informação e conhecimento em ação (Dutton, 1999)”.[4]

 

O desequilíbrio educacional estaria relacionado com a divisão digital em quatro níveis: o primeiro diz respeito às diferenças entre unidades escolares, em termos sociais e tecnológicos; o segundo, à desigual distribuição de professores capacitados e motivados nas escolas; o terceiro, à diferença entre as pedagogias das escolas; e o quarto, à falta de treinamento adequados dos professores e de reforma pedagógica nas escolas, o que terminará por levar as famílias a assumirem grande parte da responsabilidade pela instrução tecnológica dos filhos.

 

Segundo Castells, “o resultado cumulativo dessas diferentes camadas de desigualdade traduz-se em vasta diferenças nos efeitos do uso da Internet sobre o desempenho educacional”, e embora estudos sobre essa problemática inda sejam raros, não permitindo conclusões definitivas, corre-se o risco de que, “na ausência de medidas corretivas, o uso da Internet, tanto na escola quanto na vida profissional, [venha a] ampliar as diferenças sociais enraizadas em classe, educação, gênero e etnia”. Como agravante desse quadro, lembra que “a divisão digital fundamental não é medida pelo número de conexões com a Internet, mas pelas conseqüências tanto da conexão quanto da falta de conexão”, e que a Internet não é apenas uma tecnologia mas também “uma forma organizacional que distribui informação, poder, geração de conhecimento e capacidade de interconexão em todas as esferas de atividade”.

 

E encerra suas reflexões falando sobre os desafios da “sociedade de rede”, uma nova forma social que está se constituindo em nível mundial, trazendo conseqüências imprevisíveis para a vida das pessoas, dependendo de sua história, cultura e instituições:

 

            “Como em casos anteriores de mudança estrutural[5], as oportunidades que essa transformação oferece são             tão numerosas quanto os desafios que suscita. Seu resultado futuro permanece em grande parte             indeterminado, e ela está sujeita à dinâmica contraditória entre nosso lado sombrio e nossas fontes de             esperança. Isto é, à perene    oposição entre tentativas renovadas de dominação e exploração e a defesa,             pelas pessoas, de seu direito de viver e de buscar o sentido da vida.”

 

Nesse sentido, alerta que “ainda que não saibamos o bastante sobre as dimensões sociais e econômicas da Internet, sabemos [que] a melhoria de nossa condição dependerá do que as pessoas fizerem, inclusive você e eu”. Também nesse sentido, Quéau ressalta que “o ciber nos fornece um leme [cabendo] a nós mesmos determinarmos a direção do navio. E a melhor direção é o ‘outro’. ... E aquele que é mais desfavorecido é ainda mais ‘outro’, exatamente porque ele é o mais desfavorecido ... [é o] que melhor representa o bem comum”.[6]

 

Entendo que depende não somente de nossa ação no mundo mas, especialmente, da nossa conscientização sobre o poder transformador da informação.[7] E aqui se revela o objetivo desta resenha: retomar a questão da responsabilidade social dos profissionais da informação na sociedade contemporânea, muito mais no que diz respeito à visão de mundo do que propriamente à nossa competência no uso das tecnologias digitais e intelectuais. Por sua vez, essa questão remete à aposta de Goldmann[8] na capacidade dos indivíduos construírem uma verdadeira comunidade humana no futuro, fundamentando minha própria reflexão sobre o papel dos profissionais que atuam no campo da Ciência da Informação: contribuir para ampliar a teia mundial da informação, trabalhando para diminuir a “info-exclusão” e aumentar as possibilidades de livre acesso aos estoques constituídos por informação pública e difusão das tecnologias digitais (e intelectuais) de informação e comunicação.

 

Certamente esta é a parte que nos cabe na tarefa coletiva de construir uma “sociedade de rede  democrática e justa: transportar, nas asas da informação,[9] o conhecimento para todos aqueles que dele necessitem, no processo social (e vital) de transformar sonhos em realidade. 

 



[1] Uma leitura de CASTELLS, M. A galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 243p. O texto publicado foi condensado do presente texto.

[2] “A De Digital Stand [DDS] tornou-se instantaneamente um sucesso extraordinário em termos de apelo popular, bem como em termos do interesse despertado na comunidade global da Internet. ...Um ano após seu início, a DDS tinha 4.000 usuários diários, com uma solicitação mensal de um milhão de páginas da web. Em apenas três anos, chegou a 50.000 residentes e em 2000 afirmava ter cerca de 140.000.”

[3] No Brasil, “a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2001 ... verificou que 12,5% da população brasileira dispunha de acesso a computador em suas casas. ... Os domicílios com altos percentuais de acesso digital estão localizados em sua maioria no Sudeste urbano, principalmente na Região metropolitana de São Paulo ...”  NERI, M.; CARVALHAES, L.; NERI, A.L.; PIERONI, A.. Lei de Moore e Políticas de Inclusão Digital. Revista Inteligência Empresarial, n.14, janeiro 2003. www.e-papers.com.br. Com relação à Internet, “segundo o Ibope eRatings, o número de usuários domiciliares ... no Brasil cresceu 0,7% em janeiro de 2003, atingindo 7,5 milhões de pessoas. O número de horas navegadas também cresceu, ... um aumento de 7,5% em relação a dezembro de 2002. [A] presença na Web brasileira esteve concentrada nos sites de "Carreira e Empregos", visitados por 1,4 milhão de internautas, 18,8% do total de usuários ativos. ... Os sites de Notícias e Informações também apresentaram crescimento em janeiro, atingindo 3,2 milhões de internautas. "... estes são indicadores de que a Internet no Brasil vai se firmando cada vez mais como um importante canal de serviços e mídia para os integrantes das classes A e B", conclui [Marcelo Coutinho, diretor de Serviços de Análise do Instituto].” RONDELLI, Elizabeth. Mídia, informação e conhecimento. www.icoletiva.com.br. 2003.

[4] Cf. DUTTON, W.H. Society on the Line: Information Politics in the Digital Age. New York: Oxford Press University. Sobre o conceito de informação como “conhecimento em ação” no campo da Ciência da Informação, ver: ARAUJO, V.M.R.H. de; FREIRE, I.M. Conhecimento para o desenvolvimento: reflexões para o profissional da informação. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v.9, n.1, 1999.

[5] Podemos citar, como exemplo em uma mesma formação histórica, a mudança da sociedade capitalista mercantil para a sociedade capitalista industrial. Cf. GOLDMANN, L. A criação cultural na sociedade moderna.  São Paulo; DIFEL, 1972.Ver aplicação dessa abordagem no campo da Ciência da Informação em: FREIRE, I.M. O desviante secreto: um exercício conceitual. Ciência da Informação, v. 25, n.3, 1996.

[6] QUÉAU, P. Cibercutlura e info-ética. Em MORIN, E. (Org.). A Religação dos Saberes: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. Jornadas temáticas (Paris, França, 1998). A palavra “leme” remete ao símbolo do Netscape, um dos navegadores pioneiros da Internet.

[7] “[Pois] se a informação é a mais poderosa força de transformação do homem [o] poder da informação, aliado aos modernos meios de comunicação de massa, tem capacidade ilimitada de transformar culturalmente o homem, a sociedade e a própria humanidade como um todo.” ARAUJO, V.M.R.H. de. Sistemas de recuperação da  informação:  nova  abordagem teórico-conceitual. Rio de Janeiro: Escola de Comunicação da UFRJ, 1994. (Tese, Doutorado em Comunicação e Cultura).

[8] “A aposta é fundamentalmente a expressão do paradoxo do homem e sua condição. Para que o homem viva como homem, ele deve engajar sua vida sem reservas, na esperança de um valor autêntico cujo sinal mais claro é que ela é realidade. É o paradoxo fundamental da condição humana: a união dos contrários, a união do espírito e da matéria, ... porque essa realidade dupla é encarnação. ... [Em Georg Lukàcs,] reaparece essa idéia de que ser homem significa engajar sem reservas sua existência na afirmação eternamente improvável de uma relação possível entre o dado sensível e o sentido, entre deus e a realidade empírica atrás da qual ele se esconde, relação ... que não se pode demonstrar e na qual, entretanto, é necessário engajar toda sua existência.” GOLDMANN, L. Dialética e cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. O texto data de 1954. Sobre a aposta de Goldmann na Ciência da Informação, ver: FREIRE, I.M. A responsabilidade social da Ciência da Informação e/ou O olhar da consciência possível sobre o campo científico. Instituto Brasieleiro de Informação em Ciência e Tecnologia – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2001 (Tese, Doutorado em Ciência da Informação)

[9] Uma metáfora que criei para o conceito de informação comorepresentação do conhecimento” proposto por Farradane em FARRADANE, J. Knowledge, information and information science. Journal of Information Science, v.2, 1980. Durante palestra sobre Barreiras na Comunicação da Informação no Curso de Gestão em Informação e Inteligência Competitiva da Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, 2003.