A  Ética  Biocêntrica

 

 

Transcrição das palestras e intervenções realizadas durante mesa-redonda, realizada

no âmbito da programação do III Congresso Internacional de Biodança.

Águas de Lindóia, SP, 17/8/1996

 

 

 

 

Objetivo do evento:

 

            Proporcionar,  a profissionais e alunos de docência em Biodança, a oportunidade de discussão de uma  práxis  social e profissional fundada no princípio biocêntrico  proposto por Rolando Toro.

 

 

Metodologia:

 

Introdução,  à cargo da coordenadora

           

Desenvolvimento,  através das expositoras, apresentadas pela coordenadora

 

 

Cada expositora teve 10 minutos para explanar seus argumentos sobre o tema.

Não estava previsto debate entre as expositoras, nem entre estas e o público.

Coube à coordenadora articular o pensamento das expositoras, com relação ao objetivo do evento,

e formular as questões que julgou pertinentes para esclarecimentos sobre cada tema.

 

A platéia pode expressar sua experiência sobre o(s) tema(s) abordados pelas expositoras.      

 

 

 

Temas  e  Expositoras:

 

 

Introdução:  Por uma Ética Biocêntrica

por  Isa Freire,  Facilitadora Titular,  coordenadora

 

A  ética  como  necessidade  social

por  Maria Paula Brum, Facilitadora Didata,

diretora da Escola Uruguaia de  Biodança

 

A ética na relação entre o profissional de Biodança e seus clientes

por  Sônia  Reis, Facilitadora Didata

 

A ética na formação do profissional de Biodança

por  Maria Angelina Pereira,  Facilitadora Didata,

coordenadora da Escola Paulista de Biodança

 

 

 

Transcrição:

 

 

 

 

Isa Freire:  Bom dia a todos. Aos meus companheiros de trabalho, agradeço a presença, por estarem aqui, para discutir um assunto extremamente importante mas que apresenta dificuldades na sua abordagem.  Como vamos, certamente, observar nesta mesa-redonda, o princípio biocêntrico é um conceito complexo, de uma complexidade epistemológica definida por seu caráter vivencial.  Uma abordagem vivencial exigirá muito mais do que aquela baseada tão somente no neocórtex cerebral. Exigirá todo o corpo, mais ainda, toda a alma. [Apresentação das Facilitadoras participantes do evento].

 

Eu vou ler para nós, as palavras com as quais Rolando Toro define o princípio biocêntrico, na sua Teoria da Biodança (ALAB, 1992): "o princípio biocêntrico concentra seu interesse no universo como sistema vivente; não são apenas os animais, as plantas ou o homem, o reino da vida. Tudo que existe, desde os neutrinos até os quasares, desde as rochas até os pensamentos mais sutis, fazem parte de um fantástico orologium biológico. O princípio biocêntrico, portanto, é um ponto de partida para estruturar as novas percepções e as novas ciências do futuro. Prioridade do vivente, ilusão do determinismo físico e abandono progressivo do pensamento linear, para entrar na percepção topológica e na poética da similaridade. Através do princípio biocêntrico, alcançamos finalmente os movimentos originais e as primordiais percepções de vinculação da vida com a vida. Essas vidas surgem da Sebedoria Milenar do Grande Pulsador da Vida, do Útero Cósmico, que se nutre e respira na afinidade e no amor dos elementos. Na luz da origem, no vazio paradisíaco da realidade, nos buscamos uns aos outros".

 

Essa ética que discutiremos aqui é, portanto, uma ética do afeto, e esse afeto pode ser definido desde aquelas forças que unem os átomos, e os quarks dentro do átomo, a força da gravidade, que une os astros, e da força eletromagnética, que une todos os sistemas viventes. É uma ética do afeto porque necessitamos do afeto para a vida. Se imaginarmos quecinco bilhões de anos, esta Terra, este Planeta Azul, estava iniciando a sua vida, sua existência. E nesse caos vital que a Terra vivenciava naquele período, começaram a surgir as primeiras células biológicas, as eucariotas, sozinhas, cada uma por si. Mas não ficaram assim por muito tempo e se buscaram umas às outras e se uniram e formaram núcleos, e esses núcleos foram formando organismos de uma tal complexidade biológica que tornou possível o fato de estarmos hoje, aqui, discutindo sobre ética e contando essa história do nosso universo.

 

Essas células desenvolveram, no seu núcleo celular, um mecanismo que possibilitassem um reconhecimento permanente nos processos de mudança de níveis. É desse mecanismo que falamos aqui, de padrões biocêntricos unidos por uma força afetiva, também presente nos processos de união entre átomos, astros e galáxias, e torna possível que tudo se comunique entre si. O que torna possível que os pares se busquem uns aos outros, para que o que está diferenciado como muitos volte a se reunir como um, como totalidade [holos].

 

Esta mesa-redonda foi organizada a partir dessa lógica da progressiva complexidade do conceito de "ética", ao longo da história da nossa civilização ocidental.  A facilitadora Maria Paula Brum, nos falará da "ética como necessidade social". Maria Paula é graduada em Ciências Jurídicas e Sociais, e tem formação pedagógica. Ela é pós-graduada em Psicologia Jurídica, em Filosofia Contemporânea, em Biodança/Sistema Rolando Toro e Biodança Clínica, pela Fundação Rolando Toro, e Psicopedagogia. Sua principal atividades é a docência, em diversas Escolas de Formação da Fundação Rolando Toro, especialmente na Argentina, Brasil e Uruguai; Maria Paula é diretora da Escola Uruguaia de Biodança, membro do Conselho Científico e Metodológico e do Conselho de Ética da Fundação Rolando Toro.

 

Para nosso desfrute, para nosso deleite, para nosso esclarecimento, Maria Paula.

 

Maria Paula:  Para mim, este encontro é especialmente solene. Vou tomar a liberdade de deixar a riqueza da espontaneidade e me ater ao documento que escrevi, como roteiro de viagem.

 

Mas a poética é algo que me fascina. E como você colocou, sobre a necessidade humana, que surgiu de uma forma social de organização. Realmente, as normas sociais, e a ética, surgiram por uma necessidade, não humana mas da organização da vida, decorrem desse princípio biocêntrico de evolução e conservação da vida. E as normas também fazem parte desse processo.

 

As primeiras normas que surgiram na história das sociedades humanas, foram as normas penais, para regular a convivência dos seres humanos. Fiquei muito feliz com o chamado para participar desta mesa-redonda, e voltei a ler o código de Hamurab, de cerca de 1800 anos antes de Cristo, e nele me chamou a atenção o parágrafo 60, que diz: "se [uma pessoa] der um campo para um arboricultor para plantar um pomar, o arboricultor planta o pomar, durante quatro anos. Ele fará crescer o pomar. No quinto ano, o proprietário do pomar e o arboricultor dividirão em partes iguais; o proprietário do pomar escolherá e tomará a sua parte". Chamou-me a atenção a sabedoria desse contrato antigo, se considerarmos nossa dificuldade de resolver problemas, como o dos "sem-terra". 

 

Neste outro código, também me chamou a atenção esse artigo: "são previstas as circunstâncias a um boi reconhecido como escorneador. As autoridades locais informaram ao proprietário do boi, sobre o perigo que seu animal representa para a comunidade. O dono do animal, contudo, não toma providência alguma e o animal mata um escravo, então o proprietário receberá a pena máxima".

 

No início, é a sabedoria da igualdade, da não-discriminação. Você poderia fazer um parênteses e contestar: mas a punição era muito severa relativamente ao ato. Eu poderia, então, retrucar, e a punição impune queagora, será que não é mais grave ?  Será que em uma punição daquela época, mas com conceitos igualitários, de responsabilidade social, haveria mais justiça ? 

 

Penso que teríamos que retormar essa sabedoria milenar que abandonamos como coisa que não tem valor. Precisamos ser éticos, pela responsabilidade social que temos e, principalmente, na Biodança. Porque Biodança é eminentemente social. Seria importante que nós não tivessemos uma semântica nebulosa e falaciosa, sem conexão com as leis de evolução e conservação da vida. Podemos ser bons teóricos, apreciar a teoria, mas na práxis a nossa vivência é bem diferenciada. Com uma inflação do ego, a ausência de indignação, falta de respeito e comportamentos anti-éticos. Indignação me parece essencial ao tema que me coube apresentar, nesta mesa-redonda, e que muito me honra. Os comportamentos anti-éticos sobrevivem no nosso cotidiano, a cada instante, mesmo com linguagem não-verbal, com outras formas de expressão, com o desrespeito da ironia, e outros comportamentos. A identidade do indivíduo, que deveria pulsar com a identidade comunitária deixa muitas lacunas. O homem do fim do século não sente e não entende o conceito de "justiça" porque ainda não o tem internalizado. A palavra "justiça" perdeu a força. Como a palavra "amor".

 

Hoje, sob a roupagem dos direitos humanos, se vive verdadeiros genocídios, a ação social, esse comportamento sinônimo de uma psicopatologia da dissociação de grupos e bandos descompromissados consigo mesmos, com seus semelhantes, com a natureza e o cosmos. As nossas leis e códigos são verdadeiras colchas de retalhos, inoperantes e cheios de lacunas. Se voltássemos no tempo encontraríamos esse código, do Oriente Antigo, e com objetivo da legislação minimizar as injustiças. Então dizia o rei: "para fazer justiça na terra, para eliminar o não-saudável e o perverso, para que o forte não oprima o fraco, como o sol se levanta para iluminar um país".  Esses princípios são dignos de serem retomados.

 

Sem entrar no discurso falacioso, de como eram as penalidades daquela época, essas que nos enchem de indignação ao mesmo tempo em que nos faz pensar sobre os atuais crimes contra crianças e mesmo contra populações inteiras, o desrespeito à mulher. Eu me sinto feliz, face a essa realidade, pois eu consegui um lugar, eu construi esse lugar. Mas eu sei que discriminação ainda é grande, a desigualdade de oportunidades para as mlheres na sociedade. Eu tenho vontade de chorar. Os cargos importantes na hierarquia política e empresarial ainda são destinados aos homens. Geralmente, isso passa desapercebido. A realidade que a gente vive, ainda é essa, mas eu me coloco nela com otimismo, estamos lutando para isso, novas oportunidades e possibilidades.

 

A obra de Hamurab se chamava "Estela", era um nome de mulher, tem valor paradigmático e visa "sentenças justas", intervenções pela justiça e pela comunidade. A palavra "justiça" ainda não havia sido desqualificada, como hoje a conhecemos. O código de Justiniano foi um dos mais perfeitos, e foi a base para o código de direito até pouco tempo. As inovações o transformaram numa colcha de retalhos, inoperantes e ineficazes.

 

Vamos dar um saldo para a fenomenologia, o homem como ser no mundo, com um mundo de possibilidades e respeitando todas as formas de vida. Chegando até a tecnociência, que vemos todos os dias nos jornais, se ela está em equilíbrio com a vida, será uma relação saudável. O pensamento grego faz uma fundamentação ontológica da filosofia do meio ambiente. A justiça social, que consiste em respeitar o lugar de cada coisa, daí surge a ética. O ser humano entende que é capaz de respeitá-la ou violá-la, está em cada uma de nossas células, a ética está biologicamente internalizada, faz parte do processo biocêntrico de criação da vida.  Dentro de nós, sabemos sobre a ética, sentimos se um comportamento é ético ou não-ético.

 

A vida, que nós da Biodança chamamos  "o mais precioso", está prejudicada e sob risco de ser eliminada do planeta. Diariamente, milhões de seres morrem de fome, de alimentos e de amor. Neste momento histórico, alcançamos o ápice da contradição ética, representada pela morte desses milhões de pessoas. Trata-se da falta de respeito aos valores de vida, por parte da política e das tecnociências, que se apropriam da maior parte da riqueza social gerando miséria para outros setores da sociedade.

 

Em síntese, não é apenas uma crítica descompromissada de minha parte, geradora de polêmica, mas fica o questionamento, para nós como profissionais e pessoas que aceitaram e tentam viver o princípio biocêntrico, se comprometam nesse sentido: em cada célula que somos, no ser que somos, somos responsáveis e temos que nos indignar, temos que ter uma dignidade vital que não é um privilégio da nossa espécie mas de todos os sistemas viventes, uma ética que interessa, que não deixamos presa dentro de nós, está implícita em nossos atos, em nossa maneira de ser e de atuar no mundo. Como facilitadores de Biodança, devemos começar a ética por nós mesmos, com a nossa família, no nosso cotidiano, com nossos colegas, resguardando-os no nosso coração e protegendo-os. E que o "vórtice cósmico de coincidências" seja que a consciência ética e amorosa passe a ser uma realidade na nossa práxis. Encerro, então, minha participação, voltando a palavra para nossa coordenadora.  [Aplausos]

 

Isa Freire:  Agradecemos a Maria Paula, que retomou esse compromisso de cada ser humano com a vida e com a comunidade. E essa ética do afeto, em nível pessoal, me parece ser a ética da compaixão, e em nível social a ética de um compromisso. Pois o outro sou eu.

 

Agora, vamos pedir a Sônia Reis para nos falar sobre "a ética na relação entre o profissional de Biodança e seus clientes". Certamente vamos ouvir falar, novamente, do compromisso, da compaixão, trazer esses conceitos para nossa realidade de Biodança, para o exercício da nosso profissão como facilitadores. Sônia Reis é psicoterapeuta, facilitadora didata em Biodança, com formação em psicodrama e em dinâmica de grupo, estando em formação no Projeto Minotauro e em Psicologia Transpessoal. É escritora, dirigiu a Escola de Biodança de Brasilia, e tem dado contribuição expressiva ao Movimento Biodança.

 

Sônia Reis:  Sinto-me honrada em participar desta mesa-redonda, que aborda um tema extremamente importante para a Biodança. A Biodança já vem há muito tempo clamando por uma reflexão sobre como podemos desenvolver uma atitute ética no nosso trabalho. Depois da fala de Maria Paula, sobre a ética na sociedade, tenho a responsabilidade de particularizar esse conceito, aplicando-o ao profissional de Biodança. Eu sou uma profissional de Biodança, trabalho com Biodança, e desde que abracei essa profissão sempre procurei adotar uma atitude ética, na minha família, com meus filhos, meu companheiro, com meus amigos e, especialmente, com meus clientes.

 

Sempre estive preocupada em ser justa e atender as pessoas que me procuram. Temos que ter outras qualidades além da justiça, temos que primar pela proposta maior da Biodança, que é qualificar o outro. É preciso se instalar na Biodança uma ética do amor, porque a nossa proposta é amorosa, a nossa proposta é afetiva. Então, a nossa ética é espontânea, vem do coração, e aparece no nosso olhar, nas nossas atitudes, na nossa fala, no nosso movimento.

Para aproveitar bem o nosso tempo, reunimos um grupo de profissionais de Biodança, em Brasília, e refletimos juntos sobre o tema desta mesa-redonda, levantando alguns itens que consideramos importantes para a atuação ética do profissional de Biodança. Todos aqui presentes estão convidados a contribuir para aumentar esse elenco de atitudes recomendáveis para o profissional de Biodança, frente aos seus clientes.

 

No primeiro momento, relacionamos as atitudes não-éticas, não recomendáveis; num segundo momento, passamos a relacionar as atitudes éticas. Eis a nossa relação de itens:

 

– o profissional de Biodança não deve usar a Biodança como instrumento de manipulação do grupo ou de pessoas, em seu próprio interesse pessoal. Este item é extremamente importante porque o instrumento de Biodança, com o qual trabalhamos, é complexo e nossa formação, apesar de linda, enfrenta dificuldades para nos treinat face essa complexidade. É preciso tomar cuidado em ser o mais verdadeiro possível. A verdade deve estar não na fala mas, especialmente, dentro de mim, tem que estar introjetada.

 

– o profissional de Biodança não deve desenvolver a aula em seu interesse, em prol de suas próprias necessidades. Em outras palavras, não deve usar o seu grupo de Biodança para se trabalhar, como terapia, como ajuda no seu processo de crescimento. O profissional de Biodança deve ter consciência pessoal e profissional para se separar do grupo; sendo um profissional a serviço do grupo, o facilitador deve atender à necessidade do grupo, indagando-se sempre "o que é que a minha clientela precisa ?", oferecendo o que o grupo demanda. Uma coisa é o meu processo pessoal de desenvolvimento, para o qual devo buscar um grupo de Biodança, facilitado por um colega; outra coisa é o grupo que o facilitador dirige, como profissional.

 

– outra coisa importantíssima para o profissional de Biodança, diz respeito ao envolvimento pessoal com cliente, pois não podemos fazer distinção, devemos tratar a todos com igualdade e isenção. Olhar para o grupo e perceber que todos são importantes, sentir no fundo da alma que todos têm direito ao mesmo tratamento. Nesse item, devemos ter um extremo cuidado em não dar preferência. Pois mesmo que isso não seja dito, explicitamente, com certeza informaremos ao grupo nossa atitude através de formas não-verbais de comunicação.

 

– o profissional de Biodança deve estar atento para seguir o princípio metodológico da progressividade, não incluindo nos seus grupos pessoas que não estejam no momento adequado para aquele determinado grupo. Respeitar os três níveis com os quais trabalhamos, considerando-se os grupos regulares: iniciação, vivência ou intermediário, aprofundamento. Ter o cuidado de inserir o cliente no grupo que ele irá adequar-se melhor, respeitando o desenvolvimento pessoal do cliente.

 

– outra questão, relacionada ao primeiro item, que fala dos perigos da manipulação, é sobre os objetivos escusos. Temos que ter cuidado em dar transparência à nossa proposta de trabalho, em não ter "pauta oculta" para o grupo.

 

– o profissional deve cuidar de respeitar as diferenças culturais, entre nações, pois a Biodança está no mundo inteiro, e entre regiões numa mesma nação. As diferenças existem e devem ser consideradas, na consigna, na escolha das músicas, na proposta de trabalho com o grupo. Pesquisar a semântica musical da região, do povo, a música e a poesia que lhes tocam a alma. O profissional de Biodança deve conhecer os costumes e os hábitos da população residente na região onde ele atua.

 

– outro item, que se relaciona ao tema que será abordado pela Angelina, tem relação com nossos colegas, com outros profissionais de Biodança frente ao grupo. Devemos cuidar para não comentar e não dar parecer sobre algum colega facilitador, diante do nosso grupo de trabalho, especialmente no que diz respeito à desqualificação. Então, devemos ter muito cuidado com a nossa clientela, em relação aos nossos colegas, respeitá-los profundamente frente ao nosso cliente. Em nenhum momento, devemos nos envolver com ou fomentar a fofoca, alimentá-la. Na realidade, não devemos tecer comentários sobre nossos colegas profissionais de Biodança nem no nosso grupo de trabalho nem em outros grupos sociais.

 

– por outro lado, não devemos nos aliar a quaisquer pessoas ou instituições cujos princípios vse coloquem em conflito e em confronto com os princípios definidos na Biodança.

 

– o profissional de Biodança não deve registrar, em qualquer meio, a sessão de Biodança sem o consentimento do grupo.

– uma questão polêmica, é aquela representada pelo envolvimento afetivo-sexual entre o profissional de Biodança e um cliente. É uma questão relevante para nós, que trabalhamos com uma metodologia vivencial, que também participamos de grupos regulares e que, muitas vezes, encontramos o companheiro, ou companheira, de vida na Biodança. No nosso trabalho, entretanto, devemos desenvolver nossa sensibilidade para tratar essa situação, se vier a acontecer. Nesse caso, é preciso fazer uma reflexão, uma leitura crítica da situação, e adotar estratégias que não comprometam o desenvolvimento do grupo. No caso de envolvimento, pode-se analisar se não seria melhor o cliente mudar de grupo, preservando a relação e o processo de crescimento pessoal. O envolvimento com o cliente é contingência, pode acontecer, não é proibido, mas se acontecer o facilitador, ou a facilitadora, deve fazer uma reflexão profunda sobre a situação a situação. Para escolher o melhor para si, para o outro e para o grupo.

 

– por fim, a questão do sigilo sobre as sessões, um compromisso do facilitador e de todos os participanntes do grupo. Essa questão deve ser colocada no início da constituição do grupo, deve fazer parte do "contrato terapêutico", do regulamento combinado entre o grupo e o profissional de Biodança. Outros elementos desse contrato são a assiduidade, a pontualidade, o compromisso com o grupo e com o profissional. Se necessário, o profissional deve retomar esse regulamento, durante o desenvolvimento do grupo, para que esses itens fiquem internalizados no cliente.

 

Tenho aqui relacionados, outros itens que levantamos sobre a questão da ética na relação facilitador/cliente, mas o tempo esgotou. Agradeço a oportunidade de externar meus pontos de vista sobre o assunto, e também a visão de alguns companheiros facilitadores de Brasília, especialmente Osônio Ramos de Souza, Angela Lins e Mônica Filizola.

 

[Intervenção do público]  Talvez o profissional de Biodança ainda esteja pensando em termos do "eu", e não em termos do "nós". Parece-me que isso representa uma certa incoerência em relação à proposta da Biodança.

 

Isa Freire:  Eu diria que a intervenção do Carlos Joaquim, aluno da Escola de Biodança do Rio de Janeiro, é bastante provocativa, mas é muito bem vinda. A Sônia falou sobre isso, sobre o respeito ao outro, que se traduz no "nós". Muito além do nível de relação profissional, o outro é um ser humano, como eu sou. Merece, pois, todo o meu respeito, toda a minha consideração, especialmente todo o meu afeto. A intervenção do Carlos Joaquim nos trouxe uma "ponte" para o tema que Maria Angelina Pereira vai desenvolver nesta mesa-redonda: "a ética na formação do profissional de Biodança". Maria Angelina é assistente social, com especialização em Administração Hospitalar e Gerontologia Social. Tem cursos na área de Vigilância e Saúde e  Epidemiologia. Atua como assistente social na Unidade Básica de Saúde Paulo VI, onde desenvolve trabalho de Biodança com grupos da terceira idade, treinamento e sensibilização no Programa de AIDS e de mulheres vitimizadas. Concluiu sua formação docente em Biodança em 1987, com o criador do Sistema Rolando Toro, na Escola Paulista de Biodança. É coordenadora da Escola Paulista de Biodança desde 1990. É membro do Conselho Científico de Biodança, ministra cursos de Biodança, em grupos regulares e na formação de facilitadores em várias escolas de Biodança no Brasil e no exterior.

 

Maria Angelina certamente também irá nos trazer uma contribuição inestimável a esta mesa-redonda, especialmente pelo trabalho que vem desenvolvendo, em associação com a Facilitadora Didata Marlize Appy, diretora da Escola Paulista de Biodança.

 

Maria Angelina:  Pensei em várias abordagens, ao nível da fala, mas à medida em que fui ouvindo nossas colegas, e também com a intervenção do Carlos, fui me fazendo indagações e mudando o encaminhamento da fala. Passei um tempo pensando na questão da ética e da moral, das mudanças sociais, como a fala da Sônia nos trouxe sobre a questão da diversidade cultural; cada lugar tem seus próprios valores morais, alguns desses valores são legalmente sancionados, outros valores que a nível da nossa consciência nos traz a culpa, às vezes uma ação mal encaminhada. Eu sinto que a Biodança nos permite discutir essas questões a partir da vivência, a partir do coração, a partir da emoção.

 

Então, tem a ética que se pode ver a partir do neoliberalismo, do positivismo, do marxismo, que nos irá trazer algumas dimensões de valores. Na visão do marxismo, de um lado temos os proletários e do outro os senhores, donos do poder e do dinheiro. E quando o Carlos nos trouxe sua intervenção sobre a formação de facilitadores de Biodança, podemos pensar: estamos formando para que ?  Eu sinto que dentro da Biodança, dizemos que deveríamos estar buscando responder existencialmente a três enigmas, e um deles tem a ver com o fazer profissional: o que eu quero fazer ?  estou fazendo exatamente aquilo a que fui chamado ? está é a minha vocação ? é esse o caminho que eu escolhi, que eu quero abraçar, como disse a Sônia ?  Porque eu tenho que estar feliz ao fazer algo, do ponto de vista social, porque se eu conecto com o meu fazer eu vou encontrar esse espaço na ação social, e o meu fazer vai ser algo que coopera, que facilita, que contribui. Se eu estou dentro da minha vocação, no sentido de ter encontrado meu caminho, vou saber que tenho uma contribuição nesse social. Vou saber que na roda da vida, eu sou importante.

 

Eu fico pensando que, quando a gente faz a roda, na Biodança, está permitindo que apareçam as diferenças, as várias cores, os vários jeitos, mas estamos unidos porque acreditamos em algo que pode transformar. E essa roda pode se transformar em um útero de transformação. Se qualquer um de nós resolve soltar a mão da roda, teremos um círculo mas que não será um útero pois o circuito foi interrompido. Então, na formação da Biodança, posso estar dirigindo o trabalho no sentido de uma competição, que não inclua mas exclua. Esse direcionamento toma a forma como eu vou agir, na relação com aquele que veio para aprender. Pode ser uma forma em que o mestre detém o saber e o aluno apenas recebe, em que o mestre pode manipular o outro a partir do seu saber. Mas pode ser uma forma que inclua o outro, onde o mestre vai junto com o aluno, o mestre é um facilitador das descobertas do aluno. Esta perspectiva inclusiva vai me dar a metodologia do meu aprender.

 

Se eu como facilitador, ou didata, me entendo também como alguém que aprende, ao buscar conhecer eu vou buscar formas diferenciadas de passar esse conhecimento para um outro, ou descobrir um tema. Tudo isso tem relação com minha visão sobre o outro, como eu entendo e valorizo o outro. Se eu me coloco numa posição de que "porque sei mais eu sou mais", o outro saberá menos portanto será menor do que eu, ele vai ter que ser adestrado pelo meu saber. Eu posso trocar o "ter" do dinheiro" pelo "saber", que também pode estar definindo uma relação, e então eu posso estar alimentando o ego ou resgatando a identidade.

 

E a formação em Biodança tem que definir alguns caminhos. Na Biodança falamos em trabalhar a identidade, porque somos uma totalidade, uma totalidade que deve estar resgatando o ímpeto vital. Na formação, como docente tenho que resgatar esse ímpeto vital de quem está lá, no grupo, trabalhar com eles para resgatar o seu valor, sua auto-estima enquanto ser humano que buscou um fazer profissional que é a Biodança. Resgatar sua sensualidade, seu tesão pela vida, porque se estamos dentro de uma proposta profissional que tem o princípio biocêntrico, o centro é a vida, eu tenho que ser um amante da vida. Facilitador de Biodança tem que ter essa vitalidade, esse ímpeto, deve irradiar vida. E a formação do facilitador deve estar resgatando essa vivência, conduzindo à reflexão, parar para pensar: "o que eu estou fazendo com a minha vida ?"  O estilo de vida que estou escolhendo está me levando a ser coerente com aquilo que eu quero para o outro ?  Será que vou no mandamento "amar ao próximo" e esqueço que é "como a mim mesmo" ? Essa formação me leva a estar rediscutindo isso, esse amor também a mim mesmo ?

 

São questões que me coloco, hoje, como didata, se eu dou conta de estar fazendo isso na minha vida. É uma questão do cotidiano, do dia-a-dia. Quando eu penso na formação do facilitador de Biodança, penso que temos em nosso organismo algum fator de cooperação. Será que, no organismo Biodança, estamos conseguindo, na formação, desenvolver a cooperação, ou a competição ?  Que valor é esse que estou buscando nessa formação ?  Se o meu organismo, a vida em si, me traz um mecanismo, que as células utilizam contra invasores externos quando se agregam, será que estamos conseguindo essa cooperação, ou estamos indo ao encontro daquilo que destrói a vida ?  Pensando na formação, a inserção de um aluno novo na grupo em formação pode criar uma situação de discriminação do outro, e às vezes estou dando uma sentença de morte ao outro, para salvaguardar alguns medos e preconceitos pessoais.

 

Quero trazer minha vivência, a nível de São Paulo, numa situação em que uma pessoa soropositiva queria ingressar na Escola de Biodança, nós, facilitadores didatas, passamos alguns meses discutindo a inclusão ou não dessa pessoa no grupo em formação, face nossa responsabilidade perante o grupo. Hoje, a AIDS nos traz uma reflexão sobre nossos limites, como somos finitos. Temos muito a trabalhar, na questão da onipotência, ter consciência que nosso saber profissional e nossa determinação têm um limite. A questão é: "que formação é essa ?"  Eu consigo passar ao aluno confiança, confiamos de verdade um no outro ?  Ou temos um medo oculto de que alguém nos "tire o tapete" ?  Se eu me sinto sempre perseguido, que relação é essa que posso construir com o outro ?  Se a âncora dentro de mim é de perseguição ?  Vou ter sempre inimigos, nunca amigos. Rediscutir o valor de quem sabe e do que eu sei. Nos encontros, na Biodança, trabalhamos a sincronização, e ao olhar no olho do outro eu descubro o caminho. A formação tem que olhar nos olhos de quem chega e ver, com progressividade, por onde nós vamos, acreditar que o caminho de constrói ao caminhar, pois às vezes eu determino o fim do caminho e não valorizo o processo do caminho. E uma pessoa que está no processo do aprendizado ou da descoberta, às vezes aprende quando erra, quando desliza. Às vezes não valorizamos essa situação, privilegiamos o acerto, desconsideramos essa possibilidade do outro, esquecemos a sincronização e estabelecemos uma relação de mando e obediência.

 

Devemos acreditar na transparência da ação, valorizar uma formação sem "maquiagem", devemos nos ver fazendo parte de um time e quando o time ganha todos ganhamos com isso. A formação deve levar a essa cooperação, a compartilhar a noção de que cada um é importante, eu e o diferente de mim, e incluir o diferente porque me traz a minha diferença. A minha sombra faz com que eu possa me olhar e portanto crescer. Como trabalhar as nossas diferenças ao buscar o conhecimento, os nossos ritmos são diferentes, mas podemos resgatar o amor na formação, que a formação possa se fazer dentro de um amnios amoroso. E amor não significa apenas carícias, também significa limites, confrontar o meu valor com o valor do outro para afirmar minha presença no mundo. Valorizar o outro na relação, é um princípio. Estar em relação com o outro, comunicar ao outro sua posição em determinada situação, enfrentar os argumentos do outro com seus próprios argumentos. Olhar nos olhos do outro, e que esse olhar seja o olhar do coração, um olhar sem discriminação. E que a nossa formação possa ser um diálogo entre didatas e alunos, sem fechar as questões. 

 

Que o nosso caminho de formação seja esse caminho que pode passar pela opressão interna mas em vias de se libertar, de encontrar e re-significar o meu estilo de viver e o meu fazer profissional. Que esse fazer seja comprometido com a vida, comprometido com o olhar do outro, comprometido em pegar na mão. E que na roda da vida, todos possamos estar de mãos dadas com a vida.

 

Isa Freire:  Agradecemos a Maria Angelina, e distinguimos sua idéia da vocação, do chamado, e naqueles que foram chamados o grupo dos escolhidos, dos que se escolheram como facilitadores de Biodança, cada um que abraçou essa profissão. E a questão do compartilhar, pois fomos nós que escolhemos, que assumimos a responsabilidade de compartilhar, sabemos que não estamos sozinhos, estamos junto. Devo destacar, também, a questão da coerência com o princípio biocêntrico e a transparência, que nos permite olhar nos olhos do outro e se encantar com a leitura da alma do outro. Que nossos olhos possam ser transparentes.

 

E de tudo que foi dito, valendo-me da condição de coordenadora eu faria um grande arco, começando pela Maria Paula, que nos trouxe de muito longe o Humurab para nos apresentar como um facilitador do social, para que a vida em comunidade pudesse acontecer sem riscos. Em seguida, tivemos o papel do facilitador perante o seu cliente, e o facilitador é um formador desse cliente, nós somos os novos educadores, os educadores de uma "inteligência emocional". Nós temos um tesouro na nossa profissão, temos o melhor instrumento de trabalho, e na formação dos facilitadores devemos lembrar a liberdade com responsabilidade. Que cada um tenha em si a responsabilidade de ser um multiplicador da vida, a responsabilidade de plantar as sementes, de ser como o semeador da parábola de Jesus. Onde a terra fôr fértil a semente brotará, e a vida estará garantida.

 

Agradeço a todos, participantes desta mesa-redonda, e lhes asseguro que, para nós todos, foi um privilégio ter estado aqui neste evento. Bom dia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transcrição das fitas de áudio e edição do texto por  Isa Freire.

(As fitas, com a gravação das falas das participantes, estão arquivadas.)

 

Primeira versão: 3.10.96.  Encaminhada aos participantes, para revisão.

Nota em 14.12.97: À exceção de Sônia Reis, não houve feedback das participantes.