Ensaios de informação cultural  (3)

 

 

Isa Maria Freire

Doutora em Ciência da Informação. Antropóloga.

Professora no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação

Convênio CNPq/IBICTUFRJ/ECO

 

 

 

A cultura como evolução humana

 

 

 

É a partir das formas culturais que os sistemas viventes humanos atribuem significado ao mundo e a suas próprias vidas pessoais. Por sua vez, a cultura ¾ linguagem, estruturas de parentesco, relações sociais, ritos e mitos ¾ está fundada sobre a natureza. Somos uma espécie gregária, estamos ligados uns aos outros pela herança genética e pela capacidade de criar símbolos .

 

A biodiversidade da natureza tem sua contrapartida na diversidade cultural, na transmissão das formas simbólicas coletivas que se perdem na noite dos tempos pré-históricos — como os comportamentos instintivos se perdem nas raízes da árvore  filogenética.

 

A partir da emergência da consciência cognitiva, ou que conhece, os humanos criaram símbolos que se expressam através de formas  culturais ¾ os arquétipos do inconsciente coletivo[i]. À semelhança do código genético [definido como a menor unidade dotada de significado biológico, em todos os seres vivos], o arquétipo se constitui na menor unidade simbólica dotada de significado para o sistema vivente humano.

 

As formas biológicas e simbólicas se [con]fundem no homem sábio: enquanto os genes organizam as funções originárias da vida orgânica, do domínio da natureza, os arquétipos fornecem as formas que serão dotadas de significado pela vida cultural, numa dada sociedade.

 

 A evolução humana criou uma forma simbólica cuja interpretação oscila em um eixo de significado com dois pólos, opostos e complementares: o do indivíduo (subjetivo ou de natureza única) e o da coletividade (objetivo ou de natureza sócio-cultural ).

 

A informação sobre a experiência da espécie[ii], está gravada nas redes neuronais, onde as sinapses iluminam e colorem o escuro céu cerebral com a luz e as cores da cultura.  No corpo-e-mente. Na mente-e-corpo.

 

Através da filogenia e, como corolário, da ontogenia , a natureza já fez a sua parte, nos dotando de incontáveis possibilidades para realização do potencial genético humano. Como espécie em comunicação cultural, cabe-nos transformar essas possibilidades em realidades, especialmente para a formação dos vínculos de solidariedade de que necessitamos, como espécie gregária que somos. 

 

Podemos começar agora, fazendo  um círculo ritual, uma conexão, uma roda para dançar, como os antigos faziam! Podemos começar contando uma história sobre como começamos, do tipo “Era uma vez ....

 

E depois, todos juntos, corpos e mentes, poderíamos nos entregar a uma dança que seria nossa e, também, da terra, do sol, das plantas, dos animais ...  a dança da Vida!

 

No espaço-tempo da evolução humana, através da cultura, a vida está tomando consciência de sua própria dança!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[i] Conceito de arquétipo conforme J. Jacobi em Complexo, arquétipo, símbolo (prefácio de C.G. Jung). Cultrix, 1990

[ii] Chamamos essa informação de bio-semântica. I.M. Freire em Notas de Trabalho, PPGCI, RJ, 1995.