Ensaios de informação cultural  (4)

Isa Maria Freire

Antropóloga. Professora no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação

Convênio CNPq/IBICT – UFRJ/ECO

A cultura como indústria

Primeiro foi a centelha, o talento, a virtude. Em seguida, as mãos, capazes

de executar movimentos complexos em conexão imediata com o cérebro.

Depois, a capacidade de criar soluções não disponíveis na natureza, um

jeito próprio de pensar e de fazer. O animal sábio estava pronto.

A arte como dom, habilidade, jeito, é um conceito descrito num verbete do Aurélio. Um conceito tão antigo quanto o homo habilis, de mais de meio milhão de anos atrás, do tempo em que o fogo começou a ser domesticado. Toda uma arte foi desenvolvida para manter acesa a preciosa centelha de calor. Os cientistas chamam esse período de paleolítico e nele já temos a arte da transformação do natural no cultural, mediante a extensão de nossas capacidades biológicas.

Imaginemos, agora, o neolítico, um período mais recente, em que viveu o homo sapiens que antecede nossa espécie duplamente sábia. Embora nossa espécie tenha se tornado uma só, a esta altura da quase história já seremos inúmeras tribos — e em cada uma estaremos unidos pelo medo do desconhecido, criando deuses, ritos e cerimônias para nos proteger dos perigos reais e imaginários, falando uma língua própria, vivendo os valores da cultura.

Foi nesse ambiente que floresceram nossa estética e nossas artes. É nele que o artesão de ferramentas se desdobrará como escultor de amuletos mágicos, produtor de vasilhames, de armas, utensílios e signos. Nesse período, os xamãs lançaram no solo fértil da alma humana a semente prolífera da busca do conhecimento, e os primeiros observadores (cientistas ?) desenharam na terra as estradas do céu, registrando a passagem dos astros e transmitindo aos iniciados a informação sobre o pensar e o fazer, o mistério contido no verbo industriar[i].

De repente, tinha muito mais gente que não sabia fazer do que quem sabia e o conhecimento tornou-se um domínio privilegiado: a especialização se transformou em mais tempo e liberdade para criar. As plantas e animais foram domesticados e os primeiros excedentes festejados. E, logo, a arte estava nos pátios murados das primeiras cidades e os artesãos se especializaram mais e mais, uns com as mãos outros com a mente, até que se separaram, artesãos para um lado e intelectuais para outro (coisas da divisão social do trabalho ...).

Nessa viagem, a máquina do tempo nos trouxe de volta ao mundo contemporâneo e ao resultado do fenômeno que Marx denominou "reificação", do latim res — o processo capitalista de transformar tudo, do tempo às relações sociais, em "coisas". No final do nosso "breve século XX", a diversão se transforma em mercadoria, oportunidade produtiva.

Na "adeia global", festa não é mais apenas a cerimônia, o ritual, a celebração dos fenômenos naturais ou sociais: é indústria do entretenimento, onde não faltam o dom, a habilidade e o jeito, nem os contratos de merchandising e a mídia. O tempo disponível dos trabalhadores se transformou em lazer — um resgate pós-moderno dos tempos em que deuses, deusas e humanos privilegiados se amavam nas colinas que sombreiam o Mar Egeu. Aqui, do lado de baixo da linha do equador, o brilho verde do mar, o colorido das casas, o cheiro dos temperos, os risos e os cantos formam a moldura onde essa indústria da celebração lançou raízes:

A indústria na Bahia é de ponta prá alegria

Atrás da tecnologia só não vai quem não sabia

Que a indústria na Bahia é de ponta pro Orfeu

Atrás da tecnologia só não vai quem já morreu. [ii]

Os deuses das artes e da celebração retornam sob nova estrutura e a cultura se transforma em uma nova natureza, uma natureza que se traduz em símbolos e signos, meios e mensagens que circulam em um mercado. Esse meio ambiente formado pelas forças produtivas está engendrando, em seu próprio processo de inovação, o surgimento de novas oportunidades de mercado mediante a agregação de um valor ao entretenimento, uma informação cultural. No horizonte da história, estão chegando as novas formas de transmissão dos valores da cultura ...



[i] Industriar. v.t.d. 1. Trabalhar artisticamente; 2. ensinar; 6. Induzir, instigar, incitar; 7. ... aprender. FERREIRA, Aurélio B. de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 1ed. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.

[ii] SANTANA, L.; Quito. Afroolodummultimídia. Cantado por Daúde.