A PROPÓSITO DA INFORMAÇÃO PRIMORDIAL

 

 

por

 

Isa Maria Freire

Antropóloga. Doutora em Ciência da Informação

Professora no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação

(Convênio MCT/IBICT - UFF)

 

 

 

 

 

            O conceito de qualidade está se expandindo na visão do mundo e na ação produtiva de nossa sociedade. Fala-se cada vez mais em qualidade de vida, adotam-se regras de qualidade no processo produtivo, e estamos atentos para exigir qualidade nos produtos (tangíveis e intangíveis) e serviços que consumimos.

 

            Mas aqui, a qualidade é vista como um atributo dos processos naturais dos sistemas viventes[1], estreitamente relacionada à criação de sistemas cada vez mais conscientes de si mesmos e de sua necessidade de interação com outros sistemas viventes. E que, para isso, dispõem de estruturas de comunicação de uma informação primordial sobre a unidade e interrelação de todos os sistemas. É a transferência dessa informação, em todos os níveis do universo, que garante a coerência dos processos de trocas energéticas entre os sistemas, desde os mais simples até o complexo sistema vivente humano.          

 

            No nosso sistema, essa qualidade relacional adquire uma conotação cultural, através da transformação da energia produzida nos processos fisiológicos em vivências emocionais e destas em símbolos [imagens dotadas de significação], traduzidos em pensamento por uma consciência reflexiva que age em uma organização social[2]. Essa energia, que podemos chamar afetiva, se manifesta através dos ritmos biológicos, da atividade neuronal e emocional, das formas arquetípicas, dos ritos, arte, ciência e visão de mundo das sociedades humanas.

 

No processo de evolução, o sistema vivente humano acrescentou à sua natureza biológica uma natureza cultural, criando as condições para emergência de uma individualidade dotada da consciência de si mesma. Essa capacidade de agir em grupo com a liberdade de pensar individualmente, nos permitiu competir com outros sistemas viventes, sobreviver e dominar a Terra. Entretanto, de todos os hominídios que habitaram o planeta somos os últimos da nossa classe, tão ameaçados de extinção quanto os gorilas! Conseguimos isso competindo entre nós mesmos, exacerbando o domínio do individual em detrimento do coletivo. Esquecemos que, apesar das diferenças, o outro sou eu, refletido na dupla hélice do DNA. E minha sobrevivência depende dele tanto quanto a sua depende de mim.

 

Penso que, agora, quando iniciamos a experiência de viver [n]uma sociedade da globalidade[3], mais conscientes dos limites dos recursos do planeta em que vivemos, a transferência da informação primordial adquire extrema relevância para a sobrevivência do sistema vivente humano. Mas, como transferir essa informação sobre nossa responsabilidade coletiva, no contexto de competição individual que construímos ? Creio que uma resposta a essa questão poderia ser: com a transformação da energia afetiva individual numa energia afetiva transindividual,[4] através de uma pedagogia que [re]una a emoção e a cognição[5] numa visão de mundo solidária. 

 

Nesse processo, podemos descobrir na solidariedade a qualidade relacional  de que necessitamos para evoluir como sistema vivente, consciente de compartilhar a responsabilidade da manutenção da vida com os demais sistemas, no universo. Encarnando no mundo o mistério da unidade na diversidade...

 

 

 

 

 



[1] TORO, R. Teoria  da  Biodança;  coletânea  de textos.  Fortaleza:  Ed. ALAB, 1992, v.1, a saber: "Tudo quanto existe no universo, sejam elementos, astros, plantas ou animais, incluindo o homem, são componentes de um sistema vivente maior. O universo existe porque existe a vida, e não o contrário." 

[2] Chamo de bio-semântica a "estrutura de comunicação da informação do sistema vivente humano, mediante a qual os processos biológicos, interagindo com as funções psicológicas, adquirem um sentido ou valor que se traduz, fisiologicamente, em emoção e, culturalmente, em ação dotada de significação social para sres humanos em um dado meio ambiente". Em Notas de Trabalho. PPGCI, RJ, 1995

[3] Assim denominada por Edgar Morin, em contraposição ao termosociedade globalizada”: nesta perspectiva, todos os povos habitam um mesmo espaço — o planeta Terra —, por isso mesmo deveriam compartilhar os recursos disponíveis, em especial o conhecimento.

[4] GOLDMANN, L. Crítica e dogmatismo na cultura moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1973

[5] FREIRE, I.M. Programa de Ecologia Emocional nas organizações.RJ, 1997. Brochura